Em "Moderno pós Moderno" (1986) Teixeira Coelho diz que "enigmas, labirintos: [são] matérias da pós-modernidade" (p.112). E são justamente imagens enigmáticas e uma leitura confinada a um labirinto de sentidos que iremos encontrar no filme de Lucrecia Martel, "MUTA", produzido em 2011. Este curta-metragem dirigido pela cineasta argentina integra um projeto da grife italiana MIU MIU (linha jovem da PRADA), que consiste em patrocinar pequenos filmes realizados por diferentes cineastas mulheres, que tenham diferentes formações intelectuais, estéticas e possam contribuir com diferentes pontos de vista ao realizarem sua leitura do tema proposto em "The Women's Tales" , nome do projeto, que é o amor feminino.
O
curta foi gravado no Paraguai, dentro de um barco e é um experimento de cinema e moda. Nele percebemos uma visão inusitada e misteriosa em que emergem "criaturas/vestidos", apresentando a nova linha de óculos da grife e roupas da coleção de inverno 2012. Vindo de uma diretora singular como Martel, podemos notar algo que vai além da publicidade e deixa no ar algo de inquietante, na minha visão, um certo humor-negro. Para saber mais de Lucrecia Martel clique aqui e veja outro post que já fiz sobre ela. A seguir, o curta metragem:
MUTA
Proponho aqui uma análise do curta-metragem uma vez que, como disse acima, acredito que ele contenha algo que ultrapasse a mera campanha publicitária e traz em si traços de uma produção artística ligada a tal contemporaneidade X, ou pós-modernidade, ou modernidade líquida, ou qualquer outro termo que possa definir a época atual.
A mídia em que podemos acessar o filme é em si mesma o maior exemplo dessa "contemporaneidade X", a internet. Ele está disponível tanto no site da grife MIU MIU, quanto em outros canais exclusivamente de vídeos. O curta é uma experimentação que integra cinema, moda, vídeo e literatura, criando um discurso híbrido, com uma narrativa fragmentada que, no final das contas, não é dada a entender totalmente ao espectador. Podemos perceber que há uma fábula sendo contada, todavia, ela é obscura e mesmo ao final não restam muitos indícios que nos possibilitem um total entendimento daquilo que se passou entre as personagens naquele espaço. Apesar de haver uma história ela é apresentada numa "narrativa enviesada", para utilizar o termo de Katia Canton (2009), que diz que "as narrativas enviesadas contemporâneas também contam histórias, mas de modo não linear. No lugar do começo-meio-fim tradicional, elas se compõem a partir de tempos fragmentados, sobreposições, repetições, deslocamentos. Elas narram, porém não necessariamente resolvem as próprias tramas"(p.15). Esse é o caso de "MUTA".
Segundo a sinopse apresentada no
site do projeto, "The Women's Tales", "MUTA", significa tanto mudo, quanto transformação e é
“um retrato belo e enigmático” do universo feminino, cheio de simbolismos de
significado oculto e intrigas. O curta emprega uma linguagem de filme noir e
a história (fábula), traz figuras femininas denominadas “vestidos/criaturas”, que se encontram para realizar algo que se
assemelha muito a um ritual que, todavia, permanece obscuro. Nunca
vemos seus rostos o que colabora para o clima de mistério e remete a diversas imagens da
arte contemporânea de apagamento da identidade, de diluição do eu, com estratégias de desaparecimento e camuflagens (sobretudo na fotografia e na performance, mas também na pintura, na dança e no teatro), herdeiras da interpretação do "corpo sem órgãos" de Artaud realizada por Deleuze e Guatari, que juntamente com as estranhas imagens kafkianas e beckettianas, influenciaram fortemente a visão de corpo e identidade na arte pós-moderna.
Erwin Wurm (instalação - fotografia)
Marta Soares (dança - instalação)
Gehard Richter (pintura)
Samuel Beckett (teatro, literatura, vídeo)

Esta última imagem de Beckett é do curta-metragem "Film", roteirizado por ele, gravado em 1965 com Buster Keaton, no qual o rosto do personagem principal é insistentemente oculto do espectador.
(No final do post há mais imagens relacionadas).
Voltemos ao "MUTA": Somado a essa recusa de mostrar os rostos das atrizes/modelos, o que as tornam figuras bastante enigmáticas, a movimentação dessas criaturas lembra a de insetos, algumas delas,
inclusive, aparecem com máscaras o que torna a imagem ainda mais estranha,
levando-nos a aproximá-las das figuras disformes, da hibridização
humano-animal-máquina.
Não há diálogos,
pelo menos não em linguagem verbal. As mulheres “vestidos/criaturas” do filme
parecem se comunicar através de código morse e podemos perceber que se organizam para um
estranha transformação. A primeira imagem do curta mostra pequenas borboletas e libélulas sobrevoando a água e durante o desenrolar da trama há aparições e referências a esses insetos. Seriam essas mulheres criaturas mágicas, retiradas de um conto de fadas? Essa é uma leitura possível.
Os créditos do filme informam que o mesmo foi inspirado num poema de Victoria D'Antonio, chamado "Amigas". Numa visita ao site da poetisa podemos perceber sua ligação com os contos de fadas e as histórias infantis vistas de um prisma adulto e crítico. Infelizmente não consegui encontrar até agora o texto citado, portanto, não há como utilizá-lo nesta análise. Mas a impressão causada pelos outros poemas de Victoria e seu site nos deixam indícios para crer que há ali uma fábula com ares de contos de fadas, que talvez no poema esteja mais clara do que na trama criada por Lucrecia Martel. Esta, provavelmente, recontou à sua maneira, criando uma nova narrativa, que como podemos perceber até agora, enquadra-se nos critérios das pós-narrativas contemporâneas. Na pós-modernidade há uma tendência a recontar pequenas histórias, inspiradas muitas vezes em contos ou histórias passadas, como nota Kanton (2009), com o fim das "metanarrativas" (Lyotard), "escorregando e reconstruindo em meio ao mundo onde tempo e espaço se refazem mutuamente, procuramos ressignificar o mundo por intermédio das histórias" (p.39).
A sinopse de "MUTA" nos
informa ainda que, o filme de Lucrecia Martel é “uma reflexão fascinante e
pessoal do poder transformador da feminilidade”, que é a obsessão da própria
marca de roupas, MIU MIU.
Quanto à obssessão de Martel, esta é relacionada a água. Em seus filmes as histórias geralmente se passam em torno de piscinas e sempre há algo envolvendo a água. Veja também seu curta "Pescados" , de 2010. Questionada sobre isso, a cineasta responde em tom de anedota, que com certeza é algo relacionado à psicanalise. O espaço onde se passa o curta-metragem "MUTA" é um barco navegando por um rio tropical. Podemos perceber que ele é um universo todo em si mesmo e que carrega um grande teor simbólico de isolamento, inconsciente (ligado a água) e é potencialmente um "não lugar", onde decorre um estranho ritual secreto. Esse ambiente isolado, deslocado de sua função barco, coloca-nos mais uma vez num labirinto de sentidos em que podemos tentar fazer nossas conexões. Os blocos interagem entre si e seguindo a sugestão de Teixeira Coelho (1986), o espectador tem que se envolver ativamente com a obra para realizar a justaposição dos mesmos e, quem sabe, tirar daí um sentido. Não que deva haver um sentido único, isso é claro, mas pelo menos o universo criado por Martel nestes 7 minutos, deixa-nos com a sensação de que algo está acontecendo, que há ali qualquer coisa que nos escapa e nos estimula. Uso aqui as mesmas palavras de Teixeira Coelho (1986), ao referir-se a um filme de Godard, "(...) o espectador que se deu ao trabalho de preencher ou de habitar o vazio criado pelas relações não-explicitadas entre os blocos percebe que aquele filme é um enigma da vida, quer dizer, uma imagem da vida."(p.112)
Experimento que envolve cinema e moda, utilizando ainda a literatura, as artes visuais e sonora, "MUTA" é uma boa oportunidade para refletirmos a produção artística que envolve narrativas, como o cinema, o teatro, entre outras, na contemporaneidade. Vemos entrelaçadas inúmeras referências em um contexto que extrapola os limites do filme puramente publicitário, deixando-nos uma obra experimental de um dos nomes de maior destaque no cinema latino-americano da atualidade, Lucrecia Martel. Onde estão afinal esses limites? E as questões de cultura e mercado? De arte vendável ou arte a serviço do mercado? Essas questões têm me intrigado e pretendo continuar pensando sobre elas e postando aqui no blog.
Espero que tenham gostado de "MUTA" e do que tentei refletir sobre ele e se tiverem comentários, por favor, deixem aí!
Outras imagens:
Francesca Woodman
Ana Mendieta
Roger Ballen
Magnum Photos
Claire Strand
Arja Hyytiäinen
Nathalie Daoust
Goran Djurovic
Bruce LaBruce
E por aí vai...
Vejam este vídeo também, é interessante:









































