quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Os novos ventos do sul - Lucrecia Martel

    Lucrecia Martel é  diretora, roteirista e produtora de cinema, faz parte da nova onda do cinema latino-americano e tem recebido destaque nos festivais internacionais desde seu primeiro longa "O Pântano" (La Ciénaga, 2001). De acordo com o crítico Joel Poblete, que escreve para a revista de cinema Mabuse, ela é um dos membros do então chamado “novo cinema argentino”, iniciado em 1998. Agora com mais dois longas no currículo, A Menina Santa (La Niña Santa, 2004) e A Mulher sem Cabeça (La Mujer sin Cabeza, 2008), Martel começa a consolidar uma carreira promissora, comparada aos grandes mestres, apresentando um cinema de difícil classificação, onde se integram a linguagem oral, o convívio familiar e o questionamento da realidade.




    Nascida em 14 de Dezembro de 1966, em Salta, Argentina,Martel estudou animação na Escuela Nacional de Experimentación y Realización Cinematográfica (ENERC), Buenos Aires, por alguns anos, além de Ciências da Comunicação. Dirigiu alguns curtas entre 1988 e 1994, entre eles Rey Muerto, em 1995, que fez parte de Historias Breves I e foi vencedor do Festival de Cinema de Havana, na categoria “melhor curta-metragem”. Durante seus estudos, uma das escolas cinematográficas onde estudava, foi fechada por carência de fundos, Lucrecia então, manteve-se como autodidata: “Eu assistia filmes, lia livros, escrevia. Eu era uma mente livre, porque tinha que ser”, disse. Ela é considerada uma artesã de ideias. Em seus filmes tece como uma renda tramas que envolvem sexo, intrigas, tabus e que colocam a fragilidade das relações em jogo, no seu sentido mais profundo. Ela busca inspiração para seus roteiros em sua memória afetiva, não que sejam filmes autobiográficos, todavia, segundo diz a própria diretora em uma entrevista concedida ao programa Zoom da TV Cultura, "é difícil subtrair sua experiência", por isso sempre há um pouco de si mesma em seus trabalhos. Ainda na mesma entrevista Lucrecia Martel fala que sua relação com os atores é de colaboração, pois acredita que o diretor não é o detentor da verdade absoluta no set, afinal, cinema é trabalho coletivo. Como gosta muito de conversar é assim que dirige os atores, procurando passar a eles aquilo que a moveu ao criar o roteiro.
    Como já foi dito é difícil enquadrar a diretora argentina em gêneros, tipologias, redes de afinidades. Expressa, como outros cineastas de sua geração, um virulento desencanto com a Argentina que herdaram da ditadura militar e das crises econômicas. Mas em sua própria definição, Martel se diz muito clássica e com um estilo dos anos 80.


    Seu primeiro longa-metragem, de 2001, La Ciénaga, foi vencedor do Urso de Ouro de Berlim e do Condor de Prata da Associação de Críticos de Cinema da Argentina (2002), além de outros festivais em 2001, como o Festival Internacional de Cinema do Uruguai (melhor primeiro filme), Festival de Cinema Latino-Americano de Tolouse (Grande Prêmio: descoberta da crítica francesa), Festival de Cinema de Havana (melhor diretor).







    Em 2004, escreveu e dirigiu La Niña Santa (A Menina Santa), o qual ganhou da Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes e recebeu menção honrosa dos críticos no Festival Internacional de Cinema de São Paulo, no mesmo ano. Em 2006, foi convidada para compor o júri do Festival de Cinema de Cannes.


     La Mujer Sin Cabeza, de 2008, é até agora o último longa dirigido e escrito por Lucrécia. Produzido pelos irmãos Almodóvar, foi selecionado para a Competência Oficial Do Festival de Cannes 2008 e causou incômodo por lá, sendo motivo de críticas e contestações. Para Carlos Natálio, do Blog www.c7nema.net, durante a apresentação do filme "público, crítica, tudo ficou de cabeça feita num oito, sem perceber nada, sendo que os mais bondosos lá se socorreram do 'velhinho' Antonioni para situar este aparente marasmo aburguesado. Mas se virmos bem, outra reacção não seria de esperar sobre um trabalho que reflecte precisamente sobre os mecanismos da percepção humana e suas dissonâncias com o exterior. Se a sua protagonista, a dado momento, 'perde a cabeça' e tudo o que a rodeia deixa de fazer sentido, qual seria a melhor forma de tudo isso espelhar, senão através de um enorme mapa de desorientação audiovidual?". O longa ainda recebeu premiações de La Academia de las Artes y las Ciencias Cinematográficas de la Argentina, nas categorias Melhor Filme, Melhor Diretora e Roteiro Original.
    Já é possível perceber que em pouco tempo Martel tem construído uma reputação de peso no meio cinematográfico e que sua produção, desde cedo, tem despertado interesse na crítica e também no público, já que seus filmes foram muito vistos em seu país, mesmo sendo considerados de arte. Seu olhar peculiar sobre as relações humanas e a forma como consegue organizar isso em seus roteiros e em suas imagens aviva nossa percepção e nos obriga a encarar certos temas tabus com outra ótica. Há que se destacar que os seus corrosivos comentário sociais se revestem de uma linguagem sofisticada. Humor negro de luxo. Veneno em vidro de perfume.
     Em suas produções Lucrécia Martel também possui alguns curtas metragens, como já foi citado "Rey Muerto" de 1995, e ainda "El 56", de 1988, "Piso 24", de 1989, "Bejos Rojos", de 1991, "MUTA", de 2010, produzido pela grife MIU MIU, e um outro curta-metragem curioso, de caráter bastante experimental, "Pescados", de 2010, que podemos conferir a baixo.

Pescados (2010)



    Para encerrar o post, nada melhor do que citar a própria Lucrécia Martel. Acho muito rico quando ela diz que em cinema "os termos técnicos se aprende muito rápido(...) Gesto e movimento, ter um ponto de vista, podem levar uma vida toda(...) e é preciso manter-se fiel às coisas que te interessam, sem abrir concessões à crítica ou ao público".
Em tudo o mais “La Mujer Sin Cabeza” continua a ser plenamente o cinema de Lucrecia Martel. Os locais exíguos são os espaços de contaminação onde evolui uma certa promiscuidade das relações familiares: o pântano, a piscina, os quartos são os pontos de contacto onde a proximidade adensa pulsões interiores e o contacto dos corpos. Nessa proximidade, a tarefa de auto-descoberta identitária de cada um torna-se mais flagrante.

Fontes: 
http://blogs.estadao.com.br/luiz-zanin/lucrecia-martel/, http://recorte.org/flip2008/autores-estrangeiros/lucrecia-martel/, Zoom TV Cultura http://www.youtube.com/watch?v=zzf_wTW1bGY,  http://www.mnemocine.com.br/cinema/crit/lucreciamartel_carlos.htm, http://omelete.uol.com.br/cinema/ia-menina-santai/,http://www.c7nema.net/index.php?option=com_content&view=article&id=740%3Ala-mujer-sin-cabeza-por-carlos-natalio& .   


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